Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

O MEU PERCURSO

Por: Alfredo Nobre

 

O MEU PERCURSO
A HISTÓRIA DE UM DOG
 
 
A minha relação com os motociclos não é fácil de explicar. Quando por ai ando e vou ouvindo maravilhosas histórias de motociclistas que foram quase paridos em cima de uma moto, para não dizer feitos, fico maravilhado, e porque o assunto me fascina tenho até tendência a ser levado a acreditar em tão magnificas narrativas. Mas como o sonho, o desejo, a ilusão e a procura do desconhecido (características facilmente encontradas em todos aqueles que verdadeiramente amam os motociclos) nos vão arrastando para lugares de Docis Amuenus, em contraponto àquilo que na verdade é utilizar um veiculo tão frágil como é um motociclo, depressa vamos chegando à conclusão de que certos, de resto belos contos, não vão fazendo mais do que parte do mundo do imaginário de cada um.
A relação que tenho mantido com os motociclos apenas se pode traduzir numa única palavra: PAIXÃO!
Poderia ter utilizado outra palavra, mas não teria o mesmo significado. Isto é, dou até razão àqueles que dizem que entre o Amor e a Paixão a diferença apenas está na doença. Aceito e até subscrevo. Aceito que digam por ai o costumeiro “Ui! Esse gajo é doente por motos!”. Não calculam como me sinto feliz e tranquilo quando ouço isso… na verdade, é que se isto de gostar de motos é doença, então seja eu doente sem cura para o resto da minha vida, porque tem sido nesta “doença” que por vezes tenho encontrado paliativo para evitar outras maleitas maiores (pelo menos até à data).
A família em que nasci, e que julgo ser uma típica família de média-alta burguesia, teve igualmente sempre a condição de educar os seus rebentos dentro daquilo que é normal a educação numa família desta classe. Os princípios que desde o berço recebi não foram, de facto, os do gosto pelas motos, longe disso! Mas aqueles que me incutiram enquanto ser humano em formação foram de facto decisivos para a minha opção de vida.
Fui criado rodeado de histórias in-comuns que me fascinaram sempre. Entre as histórias do Meu bisavô paterno, possuidor de 14 cavalos que utilizava para o comércio de bens de primeira necessidade, e sobre o qual recai a “lenda” de ter ajudado a fugir o Rei D. Manuel II para Espanha, a cavalo e as histórias que o meu avô materno trouxe da Flandres durante a Guerra de 14 como ele apelidava a primeira guerra Mundial, para não falar das histórias que o meu pai coleccionou durante os seis anos em que serviu o pais no Ultramar, como tripulante de aviões da força Aérea. A que de facto sempre maior curiosidade me despertou foi a das motos que o meu tio João teve durante a sua vida. O meu tio João, levado pelas necessidades da vida, cedo se iniciou no mundo dos negócios, e como a necessidade de se deslocar de forma rápida e económica era urgente, após os anos seguintes aos da Segunda Guerra Mundial, o veiculo que por ele foi preferênciado foram sempre os motociclos. Não jurando o rigor daquilo que a seguir vos contarei, mas creio que o meu tio João começou por adquirir um Ducati Cuciollo como primeiro veiculo motorizado, com o qual, conjuntamente com o Sr. João Neca, possuidor de um Alpino, foram fazendo as honras da casa enquanto motociclistas por todo o concelho do Sabugal e não só, viajando e desfrutando desses rudimentares motociclos. em tudo aquilo que os mesmos lhes podiam oferecer. A carteira de meu tio cresceu com o passar dos anos, e o seu gosto pelos veículos de duas rodas também, e acredito que esta foi a principal razão para continuar a utilizar no seu dia-a-dia o motociclo. Desta forma, foram-se sucedendo lá por casa, as BSA´s, as JAWA’S, as BMW’s, e para mim… a mais fascinante de todas a NORTON 500 de 1952, igualzinha àquela que o Ché utilizou na sua longa viagem pela América do Sul.
Talvez tenham sido as histórias sobre as motos de meu tio, que meu pai me ia contando, com maior ou menor rigor, ou aquela Zundapp Supercombinette que ele adquiriu um dia e que tenho andado a restaurar, ou a Casal Fundador Enduro que meu irmão ganhou como prémio de bom aluno, ou as magnificas máquinas, agora clássicas, que ia vendo pelo menos uma vez por ano, aquando das férias em família enquanto puto em Peniche que os turistas Alemães, Belgas, Ingleses, Holandeses, etc, iam apresentando, entre as quais se incluíam, Hondas CB 750 Four´s, BMW’s R90 e R100, KAWAZAKI’s, SUZUKIS, etc…
Nesses tempos em que todas as famílias se preocupam em levar, por vezes com tantos sacrifícios, os seus rebentos até às areias de uma praia qualquer deste pais, andava a minha preocupada em convencer aqui o puto a ir à praia, uma vez que o meu passatempo preferido de ferias era ficar à entrada do parque de campismo municipal de Peniche a ver entrar os “camones” e as “Motas Grandes” como a miudagem apelidava esses motociclos na altura. Era talvez fácil para os meus pais na altura, penso eu agora, deixarem-me sozinho no parque de volta cá dos meus sonhos de motociclista… afinal sabiam sempre onde me encontrar, se não estivesse ao pé da mais exuberante moto do parque, estava certamente convivendo com os Motociclistas estrangeiros que sempre me iam adoptando como “mascote” de farias.
Era nessa altura um prazer indescritível para mim ficar a observar por longas horas aquelas máquinas potentes e pequenas, capazes de trazer até mim gentes de países tão longínquos como os do norte da Europa. Era para mim também algo que me transportava a sonhos que só agora vou realizando, a conquista do poder sentar-me em cima dessas máquinas a convite dos seus proprietários. Era também um longo prazer poder sentar-me à noite na mesma mesa desses motociclistas e sentir-me como um deles. Foi também, não na altura um prazer, porque com 8, 9 anos não se compreendem certas coisas, mas para mim agora, poder ter convivido alegremente com membros de alguns famosos MC’s, os quais inevitavelmente terão condicionado a minha visão sobre aquilo que é o mundo das motos e dos motociclistas. Agradeço-lhes por isso!
Não sei… de facto, para ser honesto nem eu sei de onde me vem este gosto do qual me orgulho, mas posso afirmar uma coisa, é que o desafio de poder andar equilibrado em apenas duas rodas, foi certamente o mesmo que me fez aos 5 anos de idade começar a andar de bicicleta sem que ninguém me tenha ensinado. Desta fase de descoberta do domínio das forças da gravidade, até conseguir a minha primeira bicicleta, comprada por mim, foi um pequeno passo, uma VILAR, azul, toda equipada com pedais de bicos e tudo como as da volta a Portugal, as mais rápidas do mundo, depressa caiu em minhas mãos para orgulho meu, aflição de meus pais e desgraça daqueles com quem ia tendo encontros pouco dóceis…
Depressa o gosto custom foi nublando as raias dos meu cérebro de 11, 12 anos e depressa a VILAR de corrida se transformou numa leve e “Potente” máquina de Cross, ao receber um guiador de Motocross, punhos e manettes a condizer em cor amarela e até a primeira peça custom que me lembro ter feito, uma placa oval com o dístico 1 que depressa foi colocada na dianteira da “Bika” afim de a tornar mais agressiva…mas sobretudo mais desejável que a Casal Fundador de meu irmão, também ele hoje membro DOG, porque já o era na altura. Essa motorizada “emprestada” tantas vezes às escondidas do seu legitimo proprietário, foi na realidade a tal que me levou a andar e desenvolver, não só o gosto pelos motociclos, como a aprender as mais elementares técnicas de pilotagem. Desta forma, e porque em mim se ia acumulando o gosto pelos percursos em terra (lama), era comum sair até ao “mato” e levar a mota até sítios onde ninguém acreditava ser possível levar! (por vezes sem sucesso, reconheço)
Esse gosto por uma modalidade sobre a qual na altura nunca tinha ouvido falar, levou-me, graças ao empenho de um jovem entusiasta como eu das motos, mas mais “vocacionado” para kitar motores a propor-me a participação no Enduro de Tomar, decorria o ano de 1984, 85…. A minha participação, com nome falso e idade mais falsa ainda, levou-me ao oitavo lugar da geral, do qual desisti por não ter idade para competir, e também a um longo período de castigo em casa por me ter metido à estrada sem qualquer licença para condução no bolso…foram meses duros!
Nestas aventuras em motorizadas, estava quase sempre presente o meu “pendura oficial”, O Chico DOG, hoje a residir em Olhão, que consegue ir pondo as suas próprias lágrimas nos meus olhos, quando vamos falando desses tempos felizes que vivemos os dois em cima da Casal. A máquina ainda hoje se encontra na família, porque acredito que uma moto depois de connosco conviver tantos anos, não deve ser vendida ou trocada, trocar friamente de moto é quase como trocar de si próprio. Hoje em dia da Casal de Seis original pouco mais resta do que o motor, a suspensão e uma ou outra peça, já que os anos que por ela passaram e os “maus tratos” que levou impediam o seu restauro de uma forma honesta. Neste momento as peças que dela restam encontram-se numa oficina de serralharia à espera de ser convertida em Chopper, posso dizer-vos que já faltou mais para ficar pronta!
Como a “Paixão” foi crescendo e desenvolvendo-se, chegou o dia e a hora em que adquiri a minha primeira moto “Grande”. Aos 17 anos de idade, e na esperança de ter dai a um ano a carta na mão, comprei uma jóia do motociclismo, uma Yamaha 400 a dois tempos! Um arranque brutal era o seu forte e um bom aquecimento do motor, sobretudo nos quentes dias de Verão …dai que depressa a “maravilha dos arranques” tenha mudado de dono, sem que os “papéis” tivessem sido alterados porque…os não tinha.
Até aos 20 anos continuei a andar de moto, já com a carta fresquinha que tinha tirado aos 18 dois anos antes.
Quis a vida que em dada altura fosse levado para longe de todos aqueles que amava e…da casal de seis também…
Os tempos em que estive fora de casa, primeiro enquanto estudante em Lisboa, depois em Coimbra na Faculdade de Letras, em seguida novamente em Lisboa, já a trabalhar, os nos seguintes desempregado, foram criando um misto de limbo e de saudade, o qual, felizmente, não serviu para esquecer os motociclos, antes sim, ajudou a consolidar a PAIXÃO e a minha necessidade de pilotar uma moto.
Em 2002 adquiri a minha segunda moto, mas desta vez o projecto era mais sólido, já, não como a Yamaha 400 2T, que era um “negócio” de Verão, mas sim como veiculo que fazia parte de uma opção de vida que tenho assumido até aqui, a vida de MOTOCICLISTA.
Foi nas faldas da Serra da Estrela, na cidade da Covilhã que adquiri a Daelim Daystar 125cc, uma máquina que para além de ajudar a retomar o sonho, ajudou, não direi a criar aquilo que é hoje o “DOG” mas sim a reunificar essas pessoas todas que fazem parte de um passado em comum sempre ligado aos motociclos, os membros do Grupo Motociclista DOG!!!
Após alguns anos a menina da casa, como lhe chamo, ganhou companhia e agora a garagem ficou mais cheia com a Honda VTX 1300 s, apenas mais um motociclo na minha vida, uma vez que todos os motociclos são encantadores, apenas vai variando a forma como os encaramos.
Depressa surgiu pela Mão do Sr. Rui Meirinho a possibilidade de colaborar mensalmente com o Jornal “Cinco Quinas” do Sabugal, com uma página inteira dedicada a assuntos sobre o mundo das motos; o “Cavalo de Ferro”. Mais tarde, em Finais de Maio de 2007 nasce o “Cavalo Alado”, o irmão mais novo do “Cavalo de Ferro” e que tem como principal vocação ser um ponto de encontro entre motociclistas de todo o mundo, por aqui já passaram mais de 100 nacionalidades de visitantes!
Assim tem sido a minha relação com os motociclos. Uma relação que se constrói todos os dias e amadurece sempre que existe partilha, a palavra mais sagrada que conheço e que tantas alegrias me tem dado.
 
 
Uma boa quarta feira para todos
 

Alfredo Nobre, Membro DOG (003)

 

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publicado por Cavalo Alado às 00:05
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2 comentários:
De nobilis007 a 25 de Junho de 2008 às 13:51
saudades do triciclo........................


De Cavalo Alado a 25 de Junho de 2008 às 15:57
E das roubadelas na Casal não tens saudades? não?


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