Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

ORGULHOSAMENTE NÓS!

 

Por: Alfredo Nobre

 

ORGULOSAMENTE SÒS
(Oliveira Salazar 1965)
 
ORGULHOSAMENTE NÓS
(Grupo DOG 2008)
 
 
Pequeno ensaio sobre a Historia do Motociclismo Nacional.
 
“Foi a 18 de Fevereiro de 1965 que Oliveira Salazar proferiu a célebre expressão que, a partir de então, foi frequentemente utilizada para caracterizar a política externa portuguesa durante a década de 1960…”
 
Hoje a 23 de Junho de 2008 afirmamos com toda a carga de tristeza inerente a esta frase de que estamos “Orgulhosamente nós”. A proximidade léxica e consonante entre as duas expressões, não têm que ver com proximidades politicas ou ideológicas entre Oliveira Salazar e o grupo DOG. Contudo, a história do Motociclismo fez-se sempre de acordo com as evoluções políticas e sociais de cada momento histórico. Não podendo desta forma deixar de constatar os factos por demais evidentes respeitantes à organização social em que vivemos e em particular naquilo que diz respeito ao mundo do motociclismo. Nos tempos do Oliveira, era comum, frequente, normalíssimo, vermos, respeitarmos, aceitarmos e interagirmos todos com um objecto que na época, mais do que uma paixão era sobretudo encarado como uma peça utilitária indispensável à boa gestão de qualquer família portuguesa, estou a falar nas motorizadas de 50cc. Nessa época, descrita por muitos como negra para o motociclismo nacional, era comum a utilização de motociclos de baixa cilindrada.
A Europa (e o mundo) haviam saído da II Guerra Mundial depauperados, com uma necessidade enorme de se reorganizar e reconstruir, com um elevadíssimo número de incapacitados provocados pelo conflito e com uma extrema necessidade de mão de obra braçal de modo a dar corpo à reconstrução desta Europa que agora conhecemos e em que vivemos. Tal projecto levou a cabo uma orientação económica de cada país no sentido (e bem) de preferênciar a criação de infra-estruturas e não de instalar ou recuperar unidades industriais que tinham inclusive sido reconvertidas para a produção de componentes e artigos destinados ao aparelho bélico. Surgia então um contra-senso, por um lado era necessário fazer deslocar imensas massas de mão de obra desde as suas residências, (geralmente na periferia dos grandes centros), por outro não havia capacidade de oferecer meios de locomoção acessíveis e económicos para esse efeito. A Europa, como dissemos atrás, não estava virada para o investimento em alternativas de teor industrial, havia primeiro que “varrer a casa” e nessa senda, foi apenas construindo velocípedes, motociclos e motocicletas de baixa cilindrada para o mercado também ele fraco e depauperado. Lembro que é exactamente nesta altura que a grande marca americana Harley-Davidson, num golpe de mestria financeira, embora contestada pelos mais puros Harlistas de todo o mundo, se coligou com a famosa construtora de aviões militares italiana, Aermacchi, afim de construir e fornecer motociclos de baixa cilindrada destinados ao mercado Europeu. Esta atitude contestada pelos mais radicais valeu à casa de Milawaukee garantir durante muitos anos a sua existência, produção e continuação da marca até aos nossos dias. Facto que outras marcas consideradas mais sólidas até à II Guerra Mundial não conseguiram fazer, e falo apenas de algumas como a Royal Enfield, Norton, Triumph, Indian, AJS, Ariel, BSA….
Se repararem bem deixei de fora as marcas italianas, essas, por qualquer motivo antes de perderem o seu orgulho “macho latino”, ou talvez porque conseguiram aperceber-se das tendências comerciais da época, não fecharam portas, antes sim adaptaram-se e orientaram a produção para máquinas de baixa cilindrada. Algumas ainda hoje sobrevivem sem grandes perturbações, mantendo-se no segmento mais baixo apesar de já terem conseguido em tempos o estrelato de campeãs mundiais, falo da Gilera, Aprilia, Morini, Moto Guzzi…. Resalva-se a MV Agusta e a actual Campeã Mundial em Moto GP Ducati, que fazem parte de um “cesto” de máquinas de eleição não disponivél para a bolsa de qualquer um.
Mas voltando às linhas iniciais desta crónica, em Portugal, graças a uma politica proteccionista imposta pela ditadura de Salazar, a perturbação no sector foi aliviada com o incremento da produção interna e respectivo consumo de motorizadas, Casal, Famel, sis-sachs, vilar…
Esta modesta mas interessante e permanente acção em relação à prática do motociclismo, devemos reconhecer ao estado então em vigor, que de uma forma discreta, foi fomentando o uso deste tipo de motociclos, embora tenha, no meu entender falhado num dos primordiais factores. A produção nacional de motores.
Com a entrada em força no mercado europeu das marcas japonesas e a conjuntura politica surgida após Abril de 1974, o nosso pais atravessa um período de acalmia em termos de consumo de motociclos. As classes tradicionalmente mais utilizadoras de motorizadas vêm surgir a oportunidade de adquirir um automóvel, relegando a motorizada para o estatuto de brinquedo para as crianças. Foi exactamente nesse período (anos 70 e 80) que germina de forma inconsciente o gosto pelas duas rodas em muitos de nós. Ao sonho da autonomia em deslocações, junta-se a afirmação e a consciência do ser “motard”. Nome que até então apenas ia designando os agentes da PSP e GNR que em serviço utilizavam motos de grande porte.
É exactamente «nesta época que começam a surgir alguns daqueles grandes grupos que ainda hoje são referência no meio motociclista nacional. Moto Clube de Faro, Moto Clube de Beja, Moto Clube de Sintra, Serranos, Moto Clube do Porto…
Com a chegada dos anos 90 e a integração plena de Portugal na União Europeia, então chamada de CEE, aumentam as condições de vida dos portugueses e mais uma vez, ao contrário de se estabelecerem franjas de produção dentro do mundo dos motociclos, assiste-se à invasão massiva de motos oriundas do Japão e mais posteriormente da Coreia e da China. A nossa politica do “orgulhosamente sós” manifesta-se mais uma vez volvidos mais de 40 anos depois da data em que fora então proferida pelo Professor Oliveira, e mais uma vez ficamos sós a consumir e de costas voltadas para um mundo de oportunidades que não quisemos explorar. Curiosamente é nesta época em que os principais fabricantes de motociclos nacionais se vêm obrigados a fechar portas que surge aquela que é hoje a mais importante e de resto única fábrica de motos nacional, a AJP.
A legislação apertada, à qual não é alheia a pouca vontade de um estado (orgulhosamente só) que não consegue dinamizar, acompanhar, aproveitar sinergias e energias no sentido de fazer florescer este sector, volta a revelar-se no projecto daquela que será a “Lei das Inspecções para Motociclos”. Um destes dias saberemos por um dos telejornais que a lei entrou em vigor e qua já não há nada a fazer. Ficaremos como de costume confusos, sem perceber muito bem de que constam essas inspecções e se algo não estiver bem só há dois caminhos, um será iniciar uma luta como a que os motociclistas encetaram em Junho de 2003 que culminou com uma manifestação de motociclistas no Terreiro do Paço e que congregou mais de 4 000 companheiros oriundos de todos os cantos do pais e que tinha como objectivo fazer com que a famosa “Lei dos Rails” fosse aplicada a par de outras medidas que o governo soubera também implementar. A outra será encolher os ombros e deixar andar, como povo de brandos costumes. Mas em qualquer dos casos, em qualquer um deles, nunca serão chamados à responsabilidade aqueles a quem compete neste preciso momento negociar com o Governo, aconselhar e fazer valer os interesses de todos nós. Nessa altura talvez estaremos, apenas  “Orgulhosamente nós!”…Talvez…
 
Uma boa Quarta Feira para todos
 
Alfredo Nobre, Membro DOG 003

 

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publicado por Cavalo Alado às 00:34
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