Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

SUGESTÃO DE LEITURA

 
JOSÉ FERNANDO LAMBELHO
 
 

Cabe hoje a vez de deixar aqui um livro escrito por um motociclista português para o público em geral e de modo especial para motociclistas portugueses. Faze-lo não é mais do que seguir com os nossos princípios de divulgação, mais do que assumir uma postura crítica, uma postura favorável ou desfavorável sobre este ou aquele autor. Na nossa intenção de dar a conhecer um pouco daquilo que se vai escrevendo por ou para motociclistas, não poderíamos deixar de apresentar aqui aquele que é talvez o mais importante de todos os livros sobre uma experiência no mundo dos motociclistas escrito em Portugal nas últimas décadas: “Padre Motard”

Mais do que nos pronunciarmos sobre o texto em si, não podemos deixar de o enquadrar com alguns dados que obtivemos sobre a personalidade de quem o escreveu, o Padre José Fernando Lambelho.

 

O padre Zé Fernando, ou como é mais conhecido, o Padre Motard, nasceu há 53 anos em Aldeia de Joanes, uma pequena aldeia do concelho do Fundão, entalada entre a Serra da Gardunha e a Serra da Estrela. À numerosa família de modestos recursos, sobrava em determinação o que as dificuldades de outros tempos limitavam em termos materiais.

 

Talvez todos estes factores tivessem estado na decisão de ingressar no Seminário do Fundão e depois no da Guarda. Uma vocação ainda não consolidada, levam o pequeno Zé Fernando a estranhar a nova vida farta de regras e muito pobre em liberdades. O resultado escolar sentiu-se e no final do ano o futuro motard regressa de férias á sua aldeia com um chumbo geral na bagagem (a todas as disciplinas).

 

O Seminário do Fundão
 

No ano escolar seguinte, fosse lá porque fosse, o pequeno aplica-se de tal forma que obtém uma bolsa de estudo.

 

Em meados dos anos setenta, já um adolescente completo, é apanhado por uma revolução que lhe traz novas ideias, novos livros, novas realidades de que nunca tinha ouvido falar. O jovem seminarista atravessa agora uma fase da sua vida que o levam a relacionar-se, por carta, com algumas amigas. A liberdade tinha chegado finalmente a Portugal, mas ainda não tinha ainda transposto os muros do Seminário da Guarda.

 

As novas idéias saídas da revolução levam o jovem Zé desafiar as regras estabelecidas, ouve Zeca Afonso e Sérgio Godinho entre outros e nutre uma crescente admiração por Arnaldo de Matos o então líder do PCTP-MRPP à semelhança dos jovens do seu tempo. As hierarquias eclesiásticas não perdoam e o rapaz da Serra da Gardunha embarca de malas e bagagens para as Planuras Alentejanas rumo ao Seminário de Évora. É no Alentejo que José Fernando encontra, provavelmente a plenitude da sua vocação sacerdotal. Num ambiente mais aberto o agora estudante de Teologia sente pela primeira vez em toda a sua carreira eclesiástica que existem métodos baseados mais na auto responsabilidade do que na imposição. Na cidade de Diana encontra ele também a sua deusa, essa de nome Maria, namorou alguns anos mas acabaria por vir abraçar os ideais de Cristo e o Seu Evangelho. Após ser ordenado lá por meados dos anos 80, parte para Reguengos de Monsaraz a fim de tomar conta da comunidade local em colaboração com mais dois colegas que já pastoreavam o rebanho. Ele seria mais um reforço. Os seus métodos abertos e pouco dados a hierarquias fazem-se de novo notar. Individuo aberto e próximo do seu rebanho e mais humano, não esgota a sua missão no altar, o servo de Deus relaciona-se com o director da Escola Secundária de Reguengos, onde dá aulas de Religião e Moral. O director, homem de convicções marxistas-leninistas e ateias, “ajuda-o” a conquistar a fama de “Padre Revolucionário”. Passa ainda pelo Algarve e regressa durante oito anos à sua terra de residência, Aldeia Nova do Cabo (Fundão) a fim de acompanhar sua mãe na doença.

 

Aldeia Nova do Cabo no Concelho do Fundão,
a terra de residência do Padre Zé Fernando.
 

O Jovem e irrequieto Padre continua a ser polémico e vai-se revelando cada vez mais a sua paixão pelas motos mas também pelos mais desfavorecidos. O Padre Motard enceta então uma missão evangélica sem precedentes no nosso país, talvez só comparável à do Padre António Vieira. São cada vez mais os motards que vão conhecendo e aceitando a postura deste Padre que não hesita em se colocar ao seu lado sem qualquer reserva, mesmo que para tal tenha que enfrentar o poder de uma Igreja que não vê com bons olhos certas práticas motorizadas…

 

A fama de “comunista” ou pouco ortodoxo com os cânones da Igreja vai aos poucos esbatendo-se, transformando-se em”comunitarista”. O Padre envolve-se com associações de motociclistas, relaciona-se com a Federação Portuguesa de Motociclismo, realiza pela primeira vez no nosso país as celebrações do dia do Motociclista, escolhe S. Rafael como padroeiro e permite que as motos acompanhem e participem nas celebrações religiosas que preside e que chegam a contar com a presença de mais de 20 000 motociclistas de norte a sul de Portugal e Ilhas. O respeito pelo Padre vai aumentando de dia para dia, mas mais vai aumentando o respeito por este homem e por este companheiro motard. O Padre não se inibe de afirmar publicamente que “não foi a igreja que terá conquistado os motards. Antes, os motards é que conquistaram a Igreja!”

 

Uma presença sempre junto dos Motociclistas
 

A vida religiosa leva-o a atravessar o Atlântico pela primeira vez ao ser destacado para acompanhar as comunidades portuguesas no Sul da Califórnia, Los Angeles, nos Estados Unidos.

 

Aos 47 anos a sua força é posta à prova de uma forma brutal. Já em terras do Tio Sam, recebe a notícia de que tem um cancro num rim e já em estado muito avançado. O padre toma consciência de que a sua vida é então precária, mas continua a trabalhar nas causas em que sempre acreditou. Em 2005 regressa a Portugal, Coimbra, a Lusa Atenas, é a cidade que o acolhe, os tratamentos prosseguem e o Padre Motard até tem melhorias mas o cancro não tem cura.

 

No ano seguinte, a convite da família Borba, retorna aos Estados Unidos afim de experimentar uma novo método de tratamento, que acaba por ser também prescrito a doentes nacionais. A doença vai tomando conta de si que resiste de uma forma surpreendente. A sua situação clínica é espantosa, não sendo explicada pela ciência de forma razoável. O Padre Zé ultrapassa todos os prognósticos, mesmo os mais favoráveis e continua a resistir e a manter-se entre nós. Contudo a sua força sobre-humana é de novo posta em causa ao saber que agora a doença que se alastrara já aos pulmões continua em franco desenvolvimento, com matastes de 7 cm, segundo os últimos exames. O Padre Motard não mostra intenções de desistir, mesmo sabendo que a viagem se torna cada vez mais curta. A sua actividade não esmorece e continua a propor-se estar ao serviço de Deus e dos outros e em meados deste ano surge nas bancas um livro escrito pelo seu punho: “Padre Motard”.

 

Este livro é assim uma autobiografia onde o Padre José Fernando Lambelho descreve alguns dos momentos mais importantes da sua vida, sempre na perspectiva de um motard. A edição conta com a apresentação de Paula Charro, Jornalista da Rádio Cova da Beira e conta ainda com a colaboração de Rosa Ramos, jornalista colaborador do Jornal “i”.

 

Com este testemunho, recebemos provavelmente um dos maiores legados que o “sacerdote que não nos virou as costas” nos ofereceu. Para crentes será uma bênção, para não crentes um documento a ter em conta, mas será sem dúvida para todos um importante e incontornável marco da história do motociclismo em Portugal. Por isso vos deixamos esta sugestão, recomendando que não se limitem a adquirir o livro, mas leiam-no e quem sabe não irão descobrir que afinal também fazem parte desta história?

 

 
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publicado por Cavalo Alado às 01:28
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