Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

ATERRAR NÃO É DIVERTIDO

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Antes de mais nada, sei que muita gente não gosta de falar sobre acidentes. Para alguns, essa conversa pode soar como desmancha-prazeres. Para outros, é como falar de corda em casa de enforcado. Mas, vejamos: o que é pior? Aceitar uma conversa nua e crua ou tornar-se uma vítima da desinformação?  

 

Então, comecemos por colocar os pés no chão – apenas os pés. Muita gente torna-se vítima de acidentes porque, antes, caiu numa cilada. Sem perceber, algumas pessoas passam a confiar naquele sofisma segundo o qual "se até ontem não me aconteceu nada, não será hoje que vai acontecer..." 

 

Mais curioso é o caso dos que unem a inexperiência àquelas fantasias inspiradas em filmes de super-heróis. Acham que os acidentes mais sérios ou resultam em morte instantânea ou nalgum tipo de lesão que logo se resolve, com gesso estético e divertidas sessões de fisioterapia.  

Por incrível que pareça, poucas pessoas têm consciência das outras hipóteses, principalmente das lesões que deixam a vítima incapaz para uma vida normal. Quem duvidar disso, faça uma visita à unidade de neurocirurgia de qualquer hospital distrital.

 

Há algum tempo eu conversei com um responsável por este serviço nos hospitais da Universidade de Coimbra e homem ligado às motos, que me disse que o desconhecimento sobre as reais consequências de um acidente é evidente sempre que conversa com os alunos nas palestras que faz em escolas e também quando leva os jovens a conhecer o centro de reabilitação do hospital. Os visitantes ficam chocados ao descobrirem como são as sequelas.  


O QUE NOS DIZEM OS ESTUDOS

 

Na ocasião tive acesso a uma pesquisa realizada em 1999 sobre morbidade das causas externas de internamentos. sobre os motociclistas internados nesses hospitais:

Capacete – entre as vítimas com lesões cerebrais, quase metade (46%) usava capacete no momento do acidente. Traduzindo: com ou sem capacete, a partir de certos níveis de impacto é praticamente impossível evitar lesões cerebrais. Uma verdade tão clara entre especialistas quanto subestimada entre leigos. Mas desde já, vai aqui um esclarecimento: ninguém está a concluir ou a insinuar que esse equipamento é inútil ou dispensável. Nada disso. O capacete protege, minimiza as consequências dos acidentes e deve ser usado sempre. O que o estudo sugere é que, nos impactos muito fortes, nem o capacete garante que o piloto esteja livre de lesões cerebrais, ainda que em menores proporções.


Lazer – a maior parte (59%) dos internamentos de acidentados com motos é de pessoas que utilizavam a moto em lazer quando ocorreu o acidente. Apenas 28% dos casos dizem respeito a pessoas que estavam a trabalhar. Estes números mostram que, apesar da grande expansão dos serviços de entregas em moto, em que milhares de pilotos se expõem diariamente à correria pelas mais perigosas ruas e avenidas, o maior número de vítimas com sequelas está noutro grupo: os motociclistas que saem apenas para passear e divertirem-se.  

 

Áreas urbanas – ao contrário do que se observa nos internamentos relacionados com acidentes de automóveis, no caso de motos a maioria dos acidentes ocorrem em áreas urbanas (57%). Aí está mais um ensinamento: quem usa equipamento completo somente para ir para a estrada talvez não saiba os riscos que corre na cidade.  

 

Lesões típicas – além daquelas já citadas, existe um padrão de lesões que, estatisticamente, também está associado a acidentes de moto. Trata-se da chamada lesão do plexo braquial. Trocado por miúdos, são aquelas que afectam a região do pescoço e ombros. A consequência é que muitas delas reduzem ou simplesmente eliminam os movimentos dos braços. Entende agora porque existem aqueles fatos com protecções enormes na região dos ombros e nas costas

 

VOCÊ É O VEICULO


Conheço um médico que nunca trabalhou nos Hospitais da universidade de Coimbra, mas tem no currículo a experiência de médico cirurgião, motociclista apaixonado e vítima de um acidente de moto. Segundo ele, a melhor maneira de compreender o que se passa num acidente com colisão é imaginar-se caindo do 2o ou 3o andar de um prédio. "Aí então, considere que as lesões resultantes de um acidente de moto podem ser bem piores do que a queda dessa altura." A sua explicação sobre os equipamentos de segurança também bate na mesma tecla. O equipamento é indispensável, pode minimizar muito as consequências do acidente, mas não faz milagres! Mesmo que esteja com capacete, botas e fato, imagine o que pode acontecer se cair do 3º ou 4º andar...

 

”Observa-se ainda, ao contrário do automobilista, que está protegido dentro de uma caixa de metal, o motociclista é, na verdade, o próprio veículo. "Temos apenas um motor no meio das pernas, que nos leva onde queremos. Por isso, qualquer parte do nosso corpo está sujeita a lesões de todo tipo, seja uma pequena abrasão ou fractura, até algo mais sério, como hemorragias internas, desfiguração da face ou as deficiências neurológicas e as suas temidas sequelas incapacitantes."

 

Depois de ouvir este amigo, conversei com um médico ortopedista. Com a experiência de quem acompanha atendimentos de emergência a vítimas de trânsito, ele utilizou conceitos da física para explicar que corpos em sentidos opostos somam as suas velocidades. Numa colisão, a força cinética do impacto é proporcional ao quadrado da velocidade. Para simplificar, o ortopedista também utiliza a comparação com a queda de um edifício. E cita o exemplo de um automobilista dentro do carro. Numa colisão a apenas 48 km/h, o automobilista sem cinto de segurança colide com o para brisas com a mesma energia decorrente de uma queda do 3º andar. Se estiver um pouco mais veloz, a 56 km/h, a pressão será superior a sete toneladas... 

 

Por todas estas razões prevenir é fundamental. A conclusão é taxativa: "pense duas, três, quatro vezes antes de dizer que o sol está muito quente para usar o equipamento! Capacete, blusão, botas e luvas não foram feitos para se usar só no tempo frio. Para quem quer vento na pele e sol na cabeça, recomendo trocar a moto por um carro descapotável!·

 

 

UMA REALIDADE QUE DÓI


Não é para chocar ninguém, mas trata-se de uma realidade que dói mesmo: entre os tipos de lesões que levam os motociclistas à unidade de neurocirurgia, a maior causa é o comprometimento da medula. Obviamente, estão fora desses registos as lesões cerebrais com morte, já que casos dessa natureza não chegam à unidade de neurocirurgia. Na grande maioria (74%) tratam-se de lesões completas, ou seja, com perda do movimento e da sensibilidade. Já nas lesões ortopédicas, que constituem a segunda maior causa de internamento, 80% afectam os membros inferiores, nas seguintes proporções: perna (50%), fémur (30,6%), joelho (13,9%), tornozelos e extremidades (5,6%). Depois de ler tudo isso, você ainda tem dúvidas sobre a necessidade de usar botas e outras protecções para estas regiões do corpo?

 


ONDE FICA O NOSSO PRAZER DE PILOTAR? 

 

Agora, você deve estar a perguntar: "diante deste quadro, como fica o nosso prazer de pilotar?"

Bem, se quer saber mesmo? O prazer de pilotar pode tornar-se ainda maior, desde que se aprenda a lição a tempo. Isso é o que mais importa numa conversa sobre segurança.  


A nossa intenção é ajudar os motociclistas a aprofundar o nível de consciência sobre os riscos à sua volta e as formas de se proteger. Vale a pena estimular sua capacidade de concentração e auto controle naqueles momentos de excitação como a carga da cavalaria a um leve toque no acelerador. O que não quer dizer que se afaste os motociclistas do sagrado prazer de pilotar. Nem há motivos para tal. Afinal, a emoção de pilotar pode ser tanto maior e mais legítima quanto mais clara a consciência dos seus riscos e limites. Vrrummm...vamos para o asfalto?

 


publicado por Cavalo Alado às 00:37
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