Domingo, 2 de Dezembro de 2007

Sugestão de Leitura

Zen e a arte

da manutenção

de

motocicletas

de robert m. pirsig

 

Editora: Editorial Presença

Tema: Literatura
Colecção: Grandes Narrativas
Preço: €20,00
ISBN: 9789722337700
Nº Páginas: 424
Data de lançamento: 19-6-2007

Sinopse: Este livro, que já inspirou muitos milhões de pessoas desde a sua publicação em 1975, é uma travessia da América on the road, cujos protagonistas são um pai e o seu filho. No fundo, é uma odisseia pessoal, filosófica e espiritual sobre o valor da vida. Em estilo acessível, pleno de humor e apelativo, o autor encontrou na arte da manutenção da sua motocicleta uma metáfora, austera e bela, que lhe permite reconciliar razão, transcendência e humanismo. Trepidante com as contradições da existência, esta leitura que se tornou um clássico moderno, é um hino ao deslumbramento de permanecer no aqui e agora da vida. Esta edição contém uma entrevista com Pirsig, cartas e documentação sobre o livro.


Nascido a 6 de setembro de 1928 em
 Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos
 

Robert M. Pirsig nasceu a 16 de Setembro de 1928 em Minneapolis, Minnesota. Formou-se em Química, Filosofia e Jornalismo e estudou o pensamento oriental na Universidade Hindu de Benares, Índia, após ter servido no exército, na Coreia. Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas distinguiu-se também por ter entrado para o Guinness, depois de ter sido recusado por 121 editoras – uma vez publicado vendeu 5 milhões de exemplares e foi objecto de intenso interesse tanto da parte da crítica como do público. Esta nova edição, passados mais de 25 anos, inclui uma nova introdução do autor, um «Guia do Leitor», correspondência, entrevistas além de uma significativa actualização tipográfica.

 

O Que diz o autor

 

Quando viajamos de férias numa motocicleta, vemos as coisas de uma maneira que é completamente diferente de qualquer outra. Num carro, estamos sempre num compartimento e, em virtude de estarmos habituados a isso, não temos consciência de que através da janela daquele carro tudo o quanto vemos é apenas mais TV. Somos observadores passivos e tudo passa por nós enfadonhamente, numa moldura.

Numa motocicleta, a moldura desaparece. Estamos completamente em contacto com tudo. Estamos na cena e não já, apenas, a observá-la, e o sentimento de presença é avassalador. Aquele cimento que zune a uns doze centímetros abaixo dos nossos pés é o material verdadeiro, a mesma coisa sobre a qual caminhamos, está ali mesmo, tão enevoado que não conseguimos concentrar o olhar nele, mas podemos em qualquer altura baixar o pé e tocar-lhe, e tudo isso, toda a experiência, nunca se apaga da consciência imediata.

 

(…)

 

A não ser que gostemos de berrar, não se trava grande conversa numa motocicleta em movimento. Em vez disso, ocupamos o nosso tempo a tomar consciência das coisas e a meditar nelas. Em paisagens e sons, no estado do tempo e em coisas que recordamos, no veículo e na região rural onde nos encontramos, a pensar nas coisas com grande vagar e tempo de sobra, sem sermos apressados e sem termos a impressão de que estamos a perder tempo.

 

(…)


Hoje de manhã discutimos a solução para o problema do empacamento, a imperfeição clássica, causada pela razão tradicional. Agora devemos falar do seu correspondente romântico, a feiúra da tecnologia, produzida pela razão.

 

(…)

A feiúra da qual os Sutherlands fugiam não é inerente à tecnologia. Eles pensavam assim porque é muito difícil separar a tecnologia da feiúra. Mas a tecnologia é apenas a produção das coisas, e essa produção, por si mesma, não pode ser feia. Do contrário não haveria beleza nas artes, que também incluem o aspecto produtivo.

 

(…)

 

A feiúra também não é inerente aos materiais utilizados pela moderna tecnologia – como se ouve dizer por aí. Os plásticos e materiais sintéticos produzidos em escala industrial não são maus em si. Só que originaram uma série de associações desagradáveis. Quem passa a vida inteira numa prisão de paredes de pedra, provavelmente vai encarar a pedra como um material essencialmente repulsivo, mesmo que ela seja a matéria-prima da escultura. Quem vive numa repugnante prisão de tecnologia plástica, que teve início com os brinquedos da infância e continua pela vida afora, atravancando a existência com uma batelada de produtos de consumo que para nada servem, provavelmente verá o plástico como algo essencialmente feio. Mas a verdadeira feiúra da tecnologia moderna não se encontra em nenhum material, formato, ato ou produto. Estes são apenas os aspectos nos quais parece residir a baixa Qualidade. É nosso costume atribuir Qualidade aos sujeitos e objetos que nos dão essa impressão.

 

A verdadeira feiúra não provém dos objetos, nem da tecnologia. Também não provém, segundo a metafísica de Fedro, de nenhum sujeito da tecnologia, das pessoas que a produzem, ou daqueles que a utilizam. A Qualidade, ou sua ausência, não está no sujeito, nem no objeto. A verdadeira feiúra localiza-se na relação entre as pessoas que produzem a tecnologia e as coisas produzidas, que gera uma relação semelhante entre as pessoas que usam a tecnologia e as coisas por elas utilizadas.

 

(…)

A resposta para o conflito entre os valores humanos e as necessidades tecnológicas não está na fuga. Fugir da tecnologia é impossível. Para resolver o conflito, é preciso romper as barreiras do pensamento dualista, que impedem uma compreensão integral do que seja a tecnologia – não uma exploração da natureza, mas uma fusão entre natureza e espírito humano, numa nova criação que transcende a ambos.

 

(…)

 

Em conseqüência disso, ocorre um fenômeno bem típico da tecnologia moderna, uma monotonia geral da aparência, tão deprimente que precisa ser coberta com o verniz da “sofisticação” para ser aceita. E isso só piora as coisas aos olhos de quem é sensível à Qualidade romântica. Aliás, isso não é apenas desgraçadamente monótono, mas também falso. Essas duas expressões resumem com bastante exatidão a moderna tecnologia americana: carros sofisticados, motores de popa sofisticados, máquinas de escrever sofisticadas, roupas sofisticadas; geladeiras sofisticadas, cheias de comida sofisticada, nas cozinhas de casas sofisticadas. Brinquedos de plástico sofisticados para crianças sofisticadas, que nos natais e nos aniversários estão sempre na moda, assim como seus pais. A gente mesmo tem que ser profundamente sofisticado para não se encher disso tudo de vez em quando. É a sofisticação que nos satura: essa feiúra tecnológica coberta por uma calda de falsificação romântica, na tentativa de se converter em beleza e produzir lucro para pessoas que, embora sejam sofisticadas, não sabem por onde começar, porque ninguém jamais lhes disse que existe neste mundo uma coisa chamada Qualidade, que é genuína, não sofisticada.

 

(…)

Creio que se quisermos reformar o mundo e transformá-lo num lugar melhor para viver, não podemos só ficar falando sobre relações de natureza política, que serão inevitavelmente dualistas, cheias de sujeitos e objetos, e de relações entre ambos; e nem podemos falar dos programas repletos de coisas a serem cumpridas por terceiros. Na minha opinião, essa abordagem começa pelo fim, e confunde o fim com o início. Os programas políticos são importantes produtos finais da qualidade social, que só poderão funcionar se a estrutura subjacente dos valores sociais estiver correta. Esses valores só estarão corretos se os valores individuais estiverem corretos. Para melhorar o mundo, devemos começar pelo nosso coração, nossa cabeça e nossas mãos, e depois partir para o exterior.

 

(…)

 

 

Fonte: Pirsig, R. M. 1988 [1974]. Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores, 8a edição. RJ, Paz e Terra.

tags:

publicado por Cavalo Alado às 02:17
link do post | comentar | favorito
|


Abril 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


CALENDARIO DE EVENTOS

BLACK SABBATH 1ª Parte

BLACK SABBATH 2ª Parte

CALENDÁRIO DE EVENTOS

FREEBIRD

CALENDÁRIO DE EVENTOS

MISSA

CALENDÁRIO DE EVENTOS

ESTAMOS DE LUTO

CONCENTRAÇÃO FARO 2011

ambiente(4)

as dez melhores motos de sempre(10)

biker lady accessories(1)

breve história dos motociclos(6)

calendário(103)

campeões de motociclismo(2)

cavalo alado saloon(4)

cavalo de ferro (opinião)(10)

choque(1)

choque!(6)

comemorações(23)

concentrações(11)

dakar teck(17)

destinos(2)

ética(10)

galeria de arte(11)

gastronomia e culinária(11)

histórias de motociclistas(17)

humor(23)

jogos(2)

legislação(5)

lendas do motociclismo(7)

lêr(10)

lisboa-dakar 2008(2)

loja das motos do cavalo alado(3)

luis torres 006(11)

marcas(35)

mecânica(5)

modalidades(1)

modelos(18)

moto gp 2007(30)

moto gp 2008-equipas e pilotos(8)

moto gp 2008-provas(16)

o grupo dog(2)

opinião(42)

os anjos(2)

os nossos panos(12)

ouvir(29)

poesia(22)

r.i.p.(2)

recados(132)

sabia que...(9)

segurânça(16)

spain tour(4)

tipos de motos(6)

vêr(22)

todas as tags

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Abril 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Weather Forecast | Weather Maps