Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

VIAJAR

Por: Alfredo Nobre

 

Desde que somos Homens, e nos reconhecemos enquanto tal, que somos assolados constantemente com dúvidas e questões para as quais, embora colocadas por nós próprios, não conseguimos encontrar o equilíbrio lógico nem tão pouco a resposta correcta. Isto nada de extraordinário tem ou representa, porque na verdade quase nunca pensamos nisso com tranquilidade, ou de forma a que nos condicione os actos no dia a dia.
 
 
Se na vida humana alguma Metáfora analógica podemos encontrar para o chamado percurso da vida, é sempre o tema das Viagens.
 
Desde sempre que o homem sentiu necessidade de viajar, de se deslocar. Faz parte da nossa condição humana e também biológica. Deslocamo-nos, motivados por necessidades de sobrevivência física, em busca de conforto ou de melhoria das condições de vida e de bem-estar. Mas fazemo-lo também por outros motivos mais imperceptíveis mas igualmente importantes. A Bíblia relata-nos o Êxodo do povo de Deus na sua fuga do Egipto, liderado não por um guerreiro ou chefe político mas sim por um Profeta: Moisés. A Fundação de Roma está inevitavelmente ligada ao”exílio” de Eneias, um poeta. A Europa da Idade Média desloca-se para o Médio Oriente num movimento conhecido pelas Cruzadas. Na Península Ibérica são os Caminhos de Santiago que se animam com um movimento de peregrinos que ainda hoje se mantém e propaga, tendo actualmente no nosso país, a sua maior expressão em Fátima, santuário fundamentalmente destinado a Peregrinos e bem conhecido de milhares de motociclistas. Mais tarde, sob a tutela de Portugal, é a Cruz de Cristo que embarca nas Caravelas e chega a todo o mundo.
Em todos estes casos não é claramente uma motivação material o que leva a tão importantes deslocações de massas de gente. Parece-me que será mais a necessidade espiritual e interior de cada um e de todos em conjunto que motivam esta acção.
Deslocar-se, Viajar, Peregrinar encerram em si mesmo um desafio do homem aos elementos superiores e ao mesmo tempo conduzem o próprio individuo a uma iniciação que lhe permite ascender numa escala que o conduz a um estado mais elevado. Os peregrinos entendem com facilidade esta reacção de entrega e recebimento, de oferta e de enriquecimento. Faz-se um determinado percurso em troca de… afim de… para obter algo. Os simples viajantes fazem os seus percursos por motivações mais íntimas e pessoais. Muitas vezes deslocamo-nos sem que seja por vontade própria, e então, esse torna-se um caminho mais doloroso e brutal.
O homem encontra em qualquer um destes casos, sempre algo de novo, de desconhecido, de misterioso, de transcendente, de imaterial e de elevação. Sente emoções, sofre fisicamente, passa fome e frio, lamenta-se, desespera mas também se ri e se equilibra, desce à sua mais profunda condição humana no sentido biológico e espiritual e sem que se aperceba retoma a sua rota e supera aquilo que parecia ser o fim, retoma o caminho e ascende rumo à luz.
Para aqueles que como eu são crentes, é fácil entender em nós essas reacções como uma manifestação cósmica de energias que constituem uma relação íntima entre nós e o resto do Universo. Claro que essas manifestações nem sempre são positivas uma vez que o conflito interno é permanente, embora no final resulte sempre um equilíbrio e um ganho para a ordem cósmica, num fenómeno em que estranhamente se encontram duas partes de um mesmo todo, que ao se entrecruzarem enriqueceram ambas.
No mundo do motociclismo as deslocações são constantes, aliás um dos pressupostos do motociclismo é esse mesmo, a necessidade de viajar. Quando programamos uma viagem, fazemo-lo tendo em conta uma série de factores. Em primeiro lugar definimos qual o destino a alcançar, de seguida iniciamos um processo em que vamos reunindo os objectos necessários para o fazer, a Moto, equipamento de protecção, viveres, abrigo, ferramentas, etc. Dependendo do tipo de viagem, da sua duração ou das condições em que prevemos vir a ser feita, do veiculo que possuímos e das nossas próprias capacidades pessoais. Quando fazemos essa deslocação entramos num processo único e numa dimensão espaço-temporal a que se chama comummente “Viagem”.
Ao viajarmos acabamos por inevitavelmente e de uma forma mais ou menos consciente analisar todos aqueles factores que atrás foram enunciados, poderemos ter esquecido algum pormenor e isso pode condicionar todo esse processo de forma mais ou menos importante. Podemos ainda depararmo-nos com algum obstáculo, algum desvio ou com o que quer que seja que nos distraia da rota projectada, no entanto urge corrigir a rota e regressar com a maior rapidez possível ao bom caminho.
Talvez a partir de aqui, aqueles menos lidados com viagens de moto, ou de qualquer outro género comecem a entender melhor esta crónica, pois é aqui que encontramos essa Metáfora Analógica de que falámos no inicio.
Tal como numa viagem, a vida é um percurso que maior ou menor, mais asfaltado ou menos, com melhor ou pior equipagem, todos temos que empreender. Para tal e durante esse processo devemos estar o mais possível sóbrios espiritualmente, atentos, e ir reunindo quer o melhor equipamento, quer os melhores companheiros de viagem. Na vida, em regra a nossa família tem um papel fundamental na preparação do trajecto. É ela quem nos inicia, nos orienta, nos prepara para essa tarefa a que nos vemos entregues de forma íntima que é viver. Depois, e a cada momento começamos a encontrar e a interagir com outros viajantes como nós. Uns preferiram percorrer a vida numa XT, outros enfrentam o seu caminho em cima de uma Harley-Davidson, outros ainda passam por nós numa GSX…. Outros há, que na vida como nas motos fingem estar ao nosso lado sempre atentos e prestáveis, mas na realidade por mais que exibam ou insistam nas suas referências, e que teimem em seguir de moto, não alcançarão o seu destino com tranquilidade. Porquê? Porque, tal como não basta ao caçador possuir a arma se não tiver munição, não basta ao verdadeiro ser humano, ou se quisermos ao verdadeiro motociclista ter a moto se não possuir a alma, a grandeza e a dimensão inteligível necessária para enfrentar com naturalidade e com sentido de missão, aquilo que no fundo é dar, recebendo em troca o maior de todos os certificados, honrarias, distinções ou troféus e que é simplesmente a PAZ com que se termina um percurso, se completa um ciclo e se parte para uma nova dimensão em que só os melhores entrarão.
 
Uma boa viagem para todos
 

Alfredo Nobre, Membro DOG (003)

 

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publicado por Cavalo Alado às 00:30
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1 comentário:
De Pró Consul a 19 de Junho de 2008 às 14:35
Uma analogia muito interesante, entre o percurso da vida e os percursos de moto... embora o tema não seja novidade apriciamos a tua abordagem. Mais uma etapa alcançada. Continuação de boa viagem, Cavalo Alado. (NN)


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