Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

E ERA - Soares Feitosa

Soares Feitosa
Couple on motorcycle - Ho
E era

[Porque, amor, o amor é de abismos.SF]


Absoluta certeza de que não: 
emparelhara, 
e como se tivesse visto, 
ou como se nem, 
e arrancou!
Ah, esses cavalos modernos, 
só tropel e pó,  
já num fôlego contra a montanha.
Como se fosse o mar,
e o mar defronte, profundos,
os olhos navegavam — pra onde?
Eram de ir, eram de vir?
Porque, amor, o amor é de abismos.
Ah, o mar, de explodir nas pedras,
ora marulho, doutras só espelho,
espelhavam
porque os meus, sumidos, 
inteiramente nos teus e eram fundos:
seriam de ir, seriam de vir? — os teus olhos,
e eram fundos.
Vontade e desencontro:
Foi por ali,
ela teria dobrado?
Voltaria? 
Por que não me disseste logo: 
amor, aqui não, neste alpendre tosco, 
os passantes, essas pessoas que nada; 
vamos, vem, vamos, às maresias, lá me contaram, 
duns passarinhos, sempre o mar, 
saltitam a areia... eles são de ir, seriam de vir, 
de tão branquinhos? 
Disparou:
Um relincho súbito,
seria o coche da rainha
voltando e os arautos

seriam de ir, seriam de vir, aonde foram?

Não, não era ninguém!

É muito simples:
o desamor não tem disfarces.
É muito simples: 
uma moto rapidíssima, 
a moto, uma firmeza de flecha e aço, 
as manoplas frementes, os joelhos em transe; 
ah, essas motos modernas, 
como gostaria de apalpá-las!, 
de uns fios negros, mais uns de ouro; 
outros, sanguíneos; na curva, tudo!, 
uma inclinação bem funda, 
vruuuummmmmm,
(a recusa!) 
engolfando o horizonte.
 
Vem, amor, este o teu mar, 
a ti, inteiro, 
todo o meu naufrágio.
Fortaleza, madrugada alta, 13.10.1997
http://www.secrel.com.br/jpoesia/feito48.html

Quem é Soares Feitosa?


feitosa.jpg (4886 bytes)

Soares Feitosa, Francisco José, Ipu, CE, 19.01.44, orfão de pai no mesmo dia em que nasceu, sou filho único. Infância na cidadezinha de Monsenhor Tabosa, também no Ceará. Toda a infância e juventude permeadas com os matos, os campos, os sertões, a caatinga, a Seca e os invernos: fazendola Catuana, às margens do rio Macacos, de sua mãe viúva, Anísia-parteira. Foi jornalista na juventude, em Fortaleza; caixeiro-viajante no Piauí; depois funcionário do Banco do Brasil. Aos 20 anos já era Fiscal do Consumo. Sempre por concurso. Aos 22 anos, casou-se com uma serrana, Glaucineide, e com ela tem cinco filhos. Em 1993, às vésperas do meio século de vida, escreveu seu primeiro poema. Em 1996 iniciou a publicação artesanal do livro Réquiem em Sol da Tarde. Ainda em 1996, fundei, na Internet, o Jornal de Poesia. Em 1997 publicou seu primeiro livro, (Psi, a Penúltima, esgotado). Assim se manifestou Wilson Martins sobre a obra de Feitosa: Os motes gerais dessa poesia, nas suas próprias palavras, são a infância, o chão, os matos, as pedras, os céus, as águas, o sertão, os bichos grandes e miúdos, oficinas e tralhas, cheiros e sons! mofumbos & alecrins, perfumes - tudo expresso no idioma dos grandes poetas universais, ecos da poesia primeva, Homero e Saint-John Perse, Walt Whitman e Victor Hugo, porque Soares Feitosa não é um "ingênuo" do romanceiro popular, não é o falso sertanejo da cidade nem o verdadeiro sertanejo iletrado, mas o sertanejo autêntico hipostasiado em poeta culto. É a "matéria do Nordeste" que forma a substância dos seus cantos épicos e dos seus transportes líricos, como na extraordinária "Antífona", uma das mais belas odes jamais escritas em língua portuguesa. É poema a ser lido por inteiro e em voz alta." (O Globo, 29.04.97).

http://virtualbooks.terra.com.br/entrevistas/feitosa/feitosa_bio.htm

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publicado por Cavalo Alado às 00:00
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